O apito intermitente ecoa no quarto, invadindo o celebro numa rota sem curvas. O som segue
martelando, batendo, alfinetando sem parar. Num golpe de puro reflexo, o
dormente acerta em cheio a trava, fazendo emudecer aquele barulho infernal. Há
oito passos dali, a fumaça do café recém-passado parece dançar ao som de Tonico
e Tinoco. Enquanto isso, ele prolongava seu sono, que doce sonho! Mas isso não
iria demorar por muito tempo. De repente, ouve-se um som exterior de um motor
em combustão que portava em sua traseira o produto das quadrúpedes ruminantes, líquido
que se mistura ao café e que até doce pode dar. O leiteiro apita, grita, bate
palmas, chama até ser atendido.
O genitor da família sempre é o
primeiro a se levantar. Ele não é acordado por nenhuma espécie de som, exceto,
às vezes, pelos roncos de sua varoa que não admite emitir som algum.
Os ecos melodizantes se espalham por todo ambiente residencial, atravessam as paredes e invadem o templo do sono. Agora, sem braços e reflexos suficientes para fazer emudecer o que se ouvia à distancia.
Era preciso se por sobre seus pés,
antes que alguém cruzasse o portal de maneira de modo intempestuoso e lhe
cutucasse a parte de onde foi tirada a Eva para Adão.
Preguiçosamente um olho se abre de
cada vez, o da esquerda, é o último a se abrir. As pernas escorrem uma a uma,
lenta e cerimoniosamente. No corredor estreito, ladrilhado, que carecia da luz do
astro-rei, o rapaz cambaleava sem suas havaianas em direção ao reservado da
casa a fim de remover com o líquido precioso àquilo que embaçava sua visão.
De volta, ele senta ao lado do aparelho e tenta mudar de estação, mas, sua ação é interrompida, pois, se interpôs entre seu indicador e sua intenção, uma mistura líquida quente de cor amarronzada, bebida oferecida sem que o mesmo emitisse sílaba alguma. Enquanto isso, sua mente trabalhava em devaneios, girando sem parar como ponteiro desgovernado de um marcador de horas. No que estava pensado o rapaz? Qual era a causa daquela aceleração mental? Trabalho? Estudos?
De volta, ele senta ao lado do aparelho e tenta mudar de estação, mas, sua ação é interrompida, pois, se interpôs entre seu indicador e sua intenção, uma mistura líquida quente de cor amarronzada, bebida oferecida sem que o mesmo emitisse sílaba alguma. Enquanto isso, sua mente trabalhava em devaneios, girando sem parar como ponteiro desgovernado de um marcador de horas. No que estava pensado o rapaz? Qual era a causa daquela aceleração mental? Trabalho? Estudos?
De retorno onde estive apagado por um
quarto de horas, se veste para mais um dia de labuta e, dos pés à cabeça, vai
se cobrindo até cravar sobre sua fronte seu protetor solar de pano com
aba. Antes de sair é envolvido em um carinhoso e demorado abraço de sua amada
genitora que parecia lhe dizer algo coisa. Antes de
Jacinto entrar em sua brasília verde, faz um cafuné em Sarnen, seu animal de
estimação que está na fase de devorar tudo que encontra pela frente, tudo
mesmo.
Todos os dias, segue o trajeto pelas ruas da cidade, que tem a fama de tudo ser grande. Seus pensamentos correm velozmente tal como uma cachoeira a inundar sua ilha existencial. Talvez sua cidade natal possa justiçar a origem de seu sonho grande que alimenta desde os tempos quando liderava o grêmio estudantil, e quando foi o presidente do bairro onde nasceu. Quem sabe, os super-heróis das revistas de quadrinhos que lia sem parar numa frenética mania que consumia 20% de sua renda mensal, alimentassem ainda o sonho de ser um senador da República. JM, a exemplo de seu conterrâneo JK, sonhava em reinar lá nas terras do Planalto Central. O mecânico, caçula de quatro irmãos: Eduardo, Fernando, Dirceu e Magno, tem pai, mãe - que são donos de uma pizzaria- e um desejo proibido que não posso revelar agora.
Jacinto Moreira é uma espécie de
médico dos automóveis que, na oficina onde trabalha - que mais parece um
pronto-socorro - tudo resolve, menos seu grave problema de alergia, culpa dos
livros velhos, empoeirados, contaminados. Ele sempre se interessou pela
história de sua cidade que acabara de completar 400 anos de existência. Os
documentos antigos, os principais fundadores da cidade, suas práticas e
hábitos, tudo queria saber, mas, seus olhos brilhavam e seu coração palpitava pelos
carros e pela política. Bem, tem um mais um, talvez seja maior do que os dois juntos.
Todos os dias, JM levantava carros quebrados
contando com o esforço de um macaco tipo jacaré. Ele alçava pesadas máquinas,
talvez pensando que o Super-homem faria melhor e mais rápido. Levantar e
abaixar carros quebrados era sua especialidade, nessa gangorra diária, ele
escondia seu maior pesadelo, andar de elevador, um trauma da infância, quando
um cabo de aço se rompeu e precisou ser resgatado pelos bombeiros, que
desespero!
Na oficina Esplanada, por de trás
daquele macacão esverdeado, todo manchado de óleo e, em meio àquelas
ferramentas frias e duras, batia um coração sensível e descompassado ao passo
de Luíza, uma linda universitária, estudante de Políticas Públicas, filha do
patrão, o seu Câmara. Ela tinha o hábito de pelo menos duas vezes por semana
passar quatro horas na oficina, a fim de estudar no escritório de seu pai.
Durante esse período, o possível senador se transformava em um presidente da nação, o menino de Itu parecia governar as terras do tio San. Seu coração acelerava todas as vezes que via, ouvia ou simplesmente sentia a fragrância do perfume de Luíza, sua paixão secreta que alimentara desde quando a menina era adolescente.
Durante esse período, o possível senador se transformava em um presidente da nação, o menino de Itu parecia governar as terras do tio San. Seu coração acelerava todas as vezes que via, ouvia ou simplesmente sentia a fragrância do perfume de Luíza, sua paixão secreta que alimentara desde quando a menina era adolescente.
Em uma dessas tardes, algo fora do
comum aconteceu...
Erro humano?
Descuido? Fatalidade? Destino? Não sei! Só o que posso contar é que, num breve
momento de contentamento e euforia quando ouvia Luíza solfejar uma canção de
Caetano... “às vezes no silêncio da noite”... um parafuso do macaco se soltou e
o motor de um automóvel gravou no peito de Jacinto. A poça de sangue
rapidamente se formou ali mesmo onde estava. Socorro! Meu Deus! Não! Não! Não! Foram os
gritos que ecoaram fazendo emudecer a canção de Luíza que desesperadamente
correu...
Só deu tempo para JM, nos
braços da linda jovem, de pele macia e olhos cor de jambo, olhar
silenciosamente para ela e gostosamente morrer feliz antes de pegar o elevador
celestial. Ele teve medo? Não sei!
Obs. A história de JM foi
contada no JN.